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Artigo: Jovem içarense, que estuda Jornalismo em Santa Maria (RS), conta sua visão da tragédia

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3 de fevereiro de 2013

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Artigo: Jovem içarense, que estuda Jornalismo em Santa Maria (RS), conta sua visão da tragédia

A formanda de Jornalismo, Bárbara Barbosa, natural de Içara, que faz faculdade na Universidade Federal de Santa Maria (RS), nos remeteu um artigo onde conta sua experiência com a tragédia que marcou a história do Brasil na última semana. Ela está na 8a fase de Jornalismo e na 3a fase de Relações Públicas. Abaixo o texto: 

“Perguntam-me como está a cidade que me acolheu por quatro anos, e a única frase que eu consigo atribuir ao que os meus olhos presenciam é “Santa Maria está paralisada.” A cidade cultura do Rio Grande do Sul, o coração desse estado, como é conhecida, está sangrando, chorando emudecida por seus 235 filhos. Imersa no mesmo silencio de pais, mães, familiares e amigos que estão paralisados, em choque.

Cala a voz dos filhos desta terra, mas brota-lhes nos olhos todas as palavras não ditas, o adeus que não pudemos oferecer, o calor de um abraço que não mais poderemos dar. Por isso evitamos olhar uns nos olhos dos outros. Não temos coragem de enfrentar além da nossa dor, a dor do outro. Preferimos abaixar os olhos e lavar de lágrimas o chão de uma terra que está impotente, perturbada pela ausência de respostas para tantos porquês.

E foi em silencio que eu e mais 35 mil caminhamos na noite de segunda-feira, todos de branco, mãos dadas, só abrindo a boca pra entoar o “Pai nosso, que estás no céu…” e batendo palmas de tempo em tempo. Comecei a pensar nos fatos e me desesperei lembrando que quinta-feira eu estava lá, festejando na Kiss. Recordei de como eu acordei atônita com a primeira mensagem, por volta das 4h, do meu ex namorado dizendo “tu tá bem?” até que em seguida recebi outra, de uma grande amiga, “pelo amor de deus me diz que tu não foi na Kiss ontem”.

A partir de então, acessei o facebook e ouvindo uma rádio local entendi a gravidade de tudo. A primeira pessoa a quem liguei foi meu pai, que ouvia sereno, também sem entender as proporções do desastre. Minha linha do tempo enchia com fotos de pessoas desaparecidas, pessoas que eu ia reconhecendo e implorava a Deus pra não ser verdade que pudessem ter morrido.

Em saber que praguejei a Deus e ao mundo, durante dois dias, por uma gripe tão forte a qual me inviabilizou de ir a Kiss sábado. Era o que eu pensava naquele dia. Doce imaturidade a minha. Muito provavelmente é por isso que esteja aqui ainda, tenho muito a aprender nessa vida. Só agora posso dizer que nunca foi tão gratificante estar gripada. Estou viva, por ter estado doente. É o que penso hoje.

O que eu vou dizer daqui pra frente de Santa Maria? Convenci meus irmãos a passar uma semana comigo nas férias, persuadi uma amiga, praticamente irmã, de Porto Alegre, a vir justamente essa semana me visitar. Falava dessa Santa Maria como um povo que recebia seus visitantes tais quais filhos, das festas divertidas, do jeito fácil que era fazer amizades por aqui. Dá pra entender um pouco pelo fato de meus irmãos, em apenas uma semana, saírem daqui com amigos que conheceram em festas. Eu mesma cheguei sem conhecer uma pessoa sequer. Na madrugada de domingo perdi seis amigos.

Vim pra cá no intuito de virar adulta, estudar, criar boas oportunidades na minha carreira. Vejo que ganhei muito mais. As pessoas me questionam o porquê de eu escolher essa cidade tão longe da minha família, de como eu tive coragem de vir sem conhecer uma pessoa. Não sabia responder. Talvez hoje eu saiba. Nada foi coincidência. Ganhei muito mais que dois cursos em uma universidade, mais que amigos, namorado, tios, tias e histórias da vida universitária. Ganhei uma lição de vida essa semana que levarei até o fim. Amem, amem muito. Diga a quem achar necessário que os ama, hoje mesmo, sem vergonha alguma. Abrace apertado, beije sem dar tempo a si mesmo pra se questionar se deve ou não.

Só no agora há garantias, as quais fazem, ou não, o depois valer a pena. Na falta de respostas para inúmeras perguntas, ficamos calados, estáticos, como se tudo fosse um pesadelo, em algum lugar, agradecidamente, muito distante. Não é. É nossa Santa Maria estática em um silêncio que dilacera nossos ouvidos.”

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